Durante a realização das necropsias, tenho observado uma mudança no padrão da causa-mortis dos animais. As mortes que outrora eram causadas amiúde pelo envenenamento com o popular “chumbinho”, está perdendo espaço para outras formas de maus tratos como golpes (incluindo socos, chutes, pauladas, capacetadas), esganamento, afogamento, esfaqueamento e decaptação, por exemplo; que tenho acompanhado quase que diariamente. Nota-se claramente um crescimento no grau de violência, crueldade e sadismo nestas ações. Há um espírito de desumanização em ação. Uma vontade deliberada de fazer sofrer e destruir. É o Animus laedendi e o Animus necandi em sua essência.

Cranio de gato morto com algum tipo de paulada, provocando fratura no crânio.
Diante do avanço alarmante dos maus-tratos contra animais, já não é possível desviar o olhar de uma realidade paralela e igualmente perturbadora: a escalada da violência, do abuso e da negligência contra seres humanos, sobretudo crianças. O que muitas vezes é analisado como problemas distintos revela, na verdade, uma conexão inquietante e profunda. Não são fenômenos isolados, mas sim manifestações de uma mesma raiz. É o ciclo da crueldade, que se repete, se amplia e se perpetua onde não é interrompido.

Necropsia de cão com 5 costelas fraturadas por maus tratos
A forma como uma sociedade trata seus animais costuma refletir, em muitos aspectos, como ela lida com os mais vulneráveis entre seus próprios membros. Animais domésticos, por exemplo, dependem integralmente dos humanos para alimentação, proteção e cuidado. Da mesma forma, crianças também se encontram em posição de vulnerabilidade, necessitando de adultos responsáveis para garantir seu desenvolvimento seguro e saudável. Quando essa responsabilidade é negligenciada ou transformada em violência, seja contra um animal ou uma criança, estamos diante de um padrão de comportamento que ultrapassa o ato isolado e revela algo mais estrutural.
Diversos estudos na área da psicologia e da criminologia apontam que a violência raramente ocorre de forma isolada. Indivíduos que praticam crueldade contra animais, especialmente de maneira recorrente, podem estar manifestando sinais de dessensibilização à dor alheia ou dificuldades profundas de empatia. Esse mesmo padrão pode se estender para relações humanas, atingindo parceiros, familiares e, de forma especialmente alarmante, crianças. Em muitos casos investigados, ambientes onde há maus-tratos a animais também apresentam histórico de violência doméstica.
Portanto, discutir a relação entre a crueldade contra animais e a violência contra pessoas, especialmente crianças, não é apenas pertinente, mas necessário e urgente. Trata-se de reconhecer que essas formas de violência compartilham raízes comuns e que enfrentá-las exige uma abordagem integrada, que envolva educação, políticas públicas, fiscalização e, acima de tudo, um compromisso coletivo com a dignidade da vida em todas as suas formas.
Reforço que o crescimento dos casos de maus-tratos contra animais não é apenas um dado isolado ou um problema restrito à proteção ambiental. Ele funciona como um sinal de alerta mais amplo, quase como uma rachadura visível em uma estrutura social que já apresenta fragilidades mais profundas. Quando essa violência se expande, frequentemente caminha ao lado de outra realidade igualmente alarmante que é o aumento dos casos de abusos, negligência e das crueldades praticadas contra seres humanos, sobretudo contra crianças.
E isso não é uma mera coincidência. A violência na sociedade contemporânea possui um padrão, método e uma lógica que se repete e se desloca entre alvos diferentes, mas igualmente vulneráveis. Animais e crianças compartilham esta condição essencial: a dependência. São seres que não têm plena capacidade de defesa e que confiam nos adultos para proteção.
Sob a perspectiva da Escola Clássica da Criminologia, esse comportamento seria compreendido como resultado de uma escolha racional do indivíduo. Autores dessa corrente defendem que o agressor age por livre-arbítrio, avaliando, ainda que de forma distorcida, os custos e benefícios de suas ações. Nesse sentido, tanto os maus-tratos a animais quanto a violência contra crianças seriam manifestações de uma decisão consciente de violar normas, o que exige uma resposta firme do sistema penal para inibir e punir tais condutas.
Em contrapartida, a Escola Positiva da Criminologia oferece uma leitura mais complexa e, ao mesmo tempo, mais inquietante. Aqui, o comportamento criminoso não nasce apenas da escolha, mas de uma combinação de fatores biológicos, psicológicos e sociais atávicos. A crueldade contra animais, nesse contexto, pode ser interpretada como um sintoma precoce de desajustes mais profundos, como ausência de empatia inata, histórico de violência vivida ou ambientes familiares desestruturados. Assim, o indivíduo que agride um animal não raramente está inserido em um ciclo de violência que pode se expandir para outras vítimas, incluindo crianças.
Essa conexão entre diferentes formas de violência não apenas reforça a gravidade do problema, mas também evidencia a urgência de uma abordagem integrada. Ignorar a agressão contra animais como algo “menor” é, na prática, fechar os olhos para um possível prenúncio de violências ainda mais devastadoras. Cada ato de crueldade tolerado contribui para a normalização da dor alheia.
Portanto, o crescimento desses casos não pode ser tratado com indiferença. Ele é um alerta urgente, um sinal claro de que algo mais profundo está se rompendo (ou já se rompeu) no tecido social. Reagir apenas depois que a violência acontece é insuficiente e, em certa medida, cúmplice da sua repetição. É preciso ir além da punição, enfrentando as raízes do problema com ações firmes e antecipadas.
Porque, no fim, uma sociedade que não protege os seus mais vulneráveis, sejam eles humanos ou animais, não apenas falha moralmente, mas também constrói um futuro marcado pela negligência, insegurança e continuidade da violência.
