Artigo escrito por:

THOBIAS DA SILVEIRA
Oficial da Brigada Militar do Estado do Rio Grande do Sul. Graduado em Direito e em Relações Internacionais. Pós-graduado em Balística e instrutor de armamento e tiro. É criador da página Balística & Armas (@balisticarmas) no Instagram, espaço dedicado à divulgação de conteúdo técnico sobre armas de fogo, munições e balística para profissionais de segurança pública, instrutores, atiradores e demais interessados no tema.
É fato que, em condições normais, o aumento do comprimento do cano tende a elevar a velocidade do projétil. O equívoco surge quando essa relação é interpretada como proporcional, supondo-se que, se dobrarmos o tamanho do cano, vamos também dobrar a velocidade do projétil na boca. Na prática, os fenômenos relacionados à balística interna e externa não se comportam dessa forma.
O cano mais longo realmente pode gerar maior velocidade, mas esse ganho ocorre de maneira não linear e com retornos progressivamente menores do que se imagina. Isso ocorre porque a aceleração do projétil ao longo da alma do cano está condicionada ao comportamento da pressão interna durante o disparo e ao padrão de queima do propelente. À medida que o projétil avança, o volume disponível para os gases aumenta, o que modifica a curva de pressão e reduz progressivamente a capacidade de aceleração.
Esse fenômeno varia conforme o projeto do cartucho. Em calibres destinados a armas curtas, o propelente normalmente apresenta menor volume e queima mais rápida, justamente porque há menor comprimento de cano disponível para converter a expansão dos gases em velocidade útil. Já nos calibres de armas longas, é possível trabalhar com maior quantidade de propelente e com uma curva de queima mais adequada a canos maiores, permitindo que a expansão dos gases seja aproveitada por mais tempo ao longo do percurso interno do projétil.
METODOLOGIA
Para esclarecer essa questão de forma objetiva, conduzimos testes balísticos com medição da velocidade na boca do cano em diversas armas, utilizando um cronógrafo Garmin Xero C1 Pro. Para isso, empregaram-se munições originais CBC, sendo utilizada a munição CBC ETOG, 124 grains, no calibre 9 mm Luger e as munições CBC M193, 55 grains, e OTM (Open Tip Match), 77 grains, ambas no calibre 5,56 × 45 mm. Em cada arma, foram realizados cinco disparos, sendo posteriormente calculada a velocidade média obtida.
No calibre 9 mm Luger, foram utilizadas as pistolas Glock G43X, Taurus TS9C, Taurus TS9 e Taurus PT92, além das carabinas Fire Eagle FE 905, FE 908 e FE 914. Já no calibre 5,56 × 45 mm, foram utilizadas as plataformas Taurus T4 de 7,5 polegadas, e Fire Eagle FE-115S, FE-145S e FE-16S, de 11,5, 14,5 e 16 polegadas, respectivamente. Essa variedade de armas permitiu comparar diferentes comprimentos de cano dentro de cada calibre, observando como a velocidade média se comportou em cada configuração.
Como foram utilizadas armas distintas, os resultados devem ser interpretados com a devida cautela. A velocidade inicial sofre influência de uma série de fatores construtivos da arma, entre eles a fabricação e a forma do raiamento, o acabamento interno do cano e da coroa, as dimensões da câmara e as tolerâncias técnicas adotadas. Ainda assim, o teste permite identificar uma tendência prática bastante útil, sem desconsiderar que cada arma apresenta particularidades mecânicas capazes de interferir no resultado final.
VELOCIDADE E DESEMPENHO TERMINAL
A velocidade constitui uma das variáveis centrais da balística. No campo da balística externa, ela influencia fenômenos como a estabilidade giroscópica do projétil e sua queda ao longo da trajetória. Já no campo da balística terminal, condiciona parâmetros como a energia cinética e o momento linear no momento do impacto. Esses fatores acabam afetando, por consequência, tanto a precisão do disparo quanto o comportamento terminal do projétil, alterando o formato da lesão e a capacidade de penetração no corpo.
Quando se observam os elementos que influenciam a capacidade lesiva e as formas de incapacitação, a importância da velocidade fica ainda mais mensurável ao analisarmos aspectos da física. No caso da energia cinética, como a velocidade aparece elevada ao quadrado (Ec = m v2 / 2), pequenos aumentos já produzem incrementos relevantes. Ao mesmo tempo, o aumento da velocidade também eleva o momento linear do projétil (p = m v), influenciando sua capacidade de manter a inércia ao encontrar resistência. Isso tende a favorecer a penetração ao longo do trajeto do projétil em tecidos, inclusive diante de barreiras intermediárias.
Dentro de um mesmo cartucho, projéteis mais leves tendem a sair com maior velocidade, o que normalmente reduz o momento linear apesar do ganho cinético. O cano mais longo eleva a velocidade sem alterar a massa do projétil, de modo que tanto a energia cinética quanto o momento linear aumentam, o que é particularmente favorável do ponto de vista da balística terminal.
A velocidade também influencia diretamente o mecanismo de lesão. Conforme Vincent J. M. DiMaio (Gunshot Wounds), convencionou-se classificar como projéteis de alta velocidade aqueles que atingem o alvo acima de aproximadamente 2.000 pés por segundo (fps), cerca de 610 metros por segundo (m/s). Trata-se de um limiar prático, e não de uma fronteira física exata. Nessa faixa, a passagem do projétil pode impor aos tecidos um deslocamento radial intenso e abrupto, provocando expansão temporária dos tecidos adjacentes ao trajeto.
Quando essa deformação permanece dentro do limite elástico do tecido afetado, que varia significativamente entre músculo, vísceras maciças (fígado e baço, por exemplo) e órgãos ocos (estômago, intestinos e bexiga, por exemplo), as estruturas tendem a retornar à posição original, sem dano adicional significativo. Porém, quando a velocidade é suficientemente alta, especialmente acima de aproximadamente 610 m/s, o deslocamento radial pode superar a capacidade elástica de determinados tecidos. Nessa situação, a lesão deixa de se limitar ao diâmetro do projétil e à cavidade permanente, passando a incluir danos provocados pela cavidade temporária.

Figura 1 – Cavidade permanente x cavidade temporária
Em calibres típicos de armas curtas, como o 9 mm Luger, esse patamar de alta velocidade normalmente não é alcançado, mesmo com canos mais longos. Por isso, a lesão relevante tende a decorrer principalmente da cavidade permanente, isto é, do trajeto diretamente produzido pelo projétil. Nesse caso, o diâmetro do projétil determina o diâmetro da cavidade permanente, enquanto a massa e a velocidade contribuem para a profundidade de penetração, favorecendo um túnel lesivo mais profundo e, consequentemente, maior potencial de incapacitação por hipovolemia, decorrente da perda massiva de sangue. No 9 mm Luger, portanto, o ganho de velocidade é importante sobretudo por elevar o momento linear e melhorar a capacidade de penetração, mas não por transformar o calibre em um projétil de alta velocidade.
Já no 5,56 × 45 mm, a velocidade assume papel mais decisivo, pois o calibre pode produzir lesões tanto por cavidade permanente quanto por cavidade temporária, esta última potencializada por fenômenos como tombamento e eventual fragmentação do projétil. Para que esses efeitos tenham maior relevância, é importante que o projétil atinja o alvo ainda em alta velocidade, em regra em velocidades próximas ou superiores a 610 m/s, ou 2.000 fps. Quanto maior a velocidade inicial, maior tende a ser a distância em que o projétil permanece acima desse limiar, preservando melhor seu potencial terminal ao longo da trajetória.
Na análise da balística terminal, a cavidade permanente costuma ser tratada como dano primário, por corresponder ao trajeto diretamente destruído pelo projétil. A cavidade temporária pode ser compreendida como dano secundário, decorrente da expansão radial dos tecidos ao redor desse trajeto. Já a fragmentação representa um dano terciário, pois cria múltiplos fragmentos que ampliam a área lesionada além do canal principal.
No caso da munição M193, a fragmentação confiável costuma ser associada a velocidades de impacto na faixa de 2.500 a 2.700 fps (cerca de 762 a 823 m/s), conforme observado em estudos do Wound Ballistics Laboratory (Fackler), embora o limiar exato varie conforme o lote do projétil, o ângulo de impacto e o meio atingido. Isso reforça a importância da velocidade no 5,56 × 45 mm. Para explorar plenamente o potencial de fragmentação da M193, não basta estar acima do limiar de alta velocidade, é necessário manter uma velocidade significativamente superior.
TESTES DE VELOCIDADE DOS PROJÉTEIS 9 MM LUGER EM DIFERENTES TAMANHOS DE CANO
No teste com 9 mm Luger, foi utilizada munição ETOG de 124 grains em pistolas subcompactas, compactas, standard e também em carabinas. Os resultados mostram que o calibre responde ao aumento de cano, mas com ganhos moderados:

Na comparação de armas compactas/subcompactas com as standard, a diferença de velocidade inicial já aparece de forma mensurável. A Glock G43X, com cano de 3,4 polegadas, registrou média de 1.085 fps, enquanto a Taurus TS9C, com cano de 3,7 polegadas, chegou a 1.100 fps. Quando comparadas à Taurus TS9, com cano de 4 polegadas e média de 1.133 fps, a TS9 ficou aproximadamente 4,4% acima da G43X e cerca de 3,0% acima da TS9C. Em relação à Taurus PT92, com cano de 5 polegadas e média de 1.164 fps, essa diferença sobe para aproximadamente 7,3% acima da G43X e 5,8% acima da TS9C.
O ganho de velocidade observado no cano standard em relação às configurações subcompacta e compacta, na ordem de 3% a 7%, tende a se refletir em algum incremento da energia cinética e do momento linear. Trata-se de uma diferença mensurável, que pode sugerir leve redução da capacidade de penetração ao se optar por armamentos mais compactos, sem que isso, contudo, comprometa de forma relevante o seu emprego.
Nas carabinas Fire Eagle, o aumento do comprimento do cano também resultou em ganho de velocidade, mas com retornos progressivamente menores. A FE 905, com cano de 5,5 polegadas, registrou média de 1.224 fps. Ao passar para a FE 908, com cano de 8,5 polegadas, houve acréscimo de 3 polegadas e a velocidade subiu para 1.292 fps, representando ganho de 5,56%.
Já entre a FE 908 e a FE 914, o cano passou de 8,5 para 14,5 polegadas, acréscimo de 6 polegadas. A velocidade subiu de 1.292 fps para 1.346 fps, ganho adicional de apenas 4,18%. Ou seja, dobrar o acréscimo de cano produziu menos ganho do que o salto anterior, evidenciando uma tendência de queda e que o retorno marginal de velocidade diminui rapidamente nessa faixa.
Para permitir uma comparação mais objetiva, foi elaborada uma tabela tomando como referência o cano de provete de 3,9 polegadas informado pela CBC, medida próxima ao padrão encontrado em muitas pistolas de serviço. A partir dessa referência, foram calculadas as diferenças de comprimento de cano e as respectivas variações de velocidade obtidas em cada arma testada. Os dados seguem na tabela abaixo.

A comparação com o cano de provete mostra que a Fire Eagle de 8,5 polegadas, com mais que o dobro do comprimento de referência, apresentou aumento de cerca de 16% na velocidade. A de 14,5 polegadas, com quase quatro vezes o comprimento do provete, alcançou ganho de aproximadamente 21%.
O comportamento é compatível com uma curva de pressão interna que decai rapidamente após o pico, característica de cartuchos concebidos para armas curtas, com menor quantidade de propelente e padrão de queima mais rápido. O 9 mm Luger continua respondendo ao aumento do cano, porém com retornos marginais decrescentes e sem mudança qualitativa de regime: a velocidade permanece abaixo do limiar convencional de alta velocidade, e o ganho do cano longo se traduz essencialmente em maior energia cinética e momento linear.
TESTES DE VELOCIDADE DOS PROJÉTEIS 5,56 × 45 MM EM DIFERENTES TAMANHOS DE CANO
Para os testes no calibre 5,56 × 45 mm, foram utilizadas munições CBC M193 de 55 grains, um carregamento leve cujo desempenho terminal está fortemente associado à velocidade. Nessa munição, a alta velocidade não apenas eleva a energia cinética e o momento linear, mas também favorece a produção de lesões por cavidade temporária, aspecto central para o comportamento terminal desse calibre.
A munição M193 corresponde à primeira padronização militar do 5,56 × 45 mm, adotada com o M16 a partir de meados da década de 1960. O AR-15 foi desenvolvido por Eugene Stoner na ArmaLite no final dos anos 1950, originalmente em torno do cartucho .222 Remington / .222 Special, que evoluiu para o .223 Remington e, na versão militar, para o 5,56 × 45 mm M193. Tanto o AR-15 quanto o M16 foram concebidos com canos longos, na faixa de 20 polegadas. Por isso, trata-se de um carregamento pensado para aproveitar uma quantidade de propelente compatível com maior extensão de cano, permitindo que a expansão dos gases e a aceleração do projétil se desenvolvam de forma mais eficiente ao longo do percurso interno.
Com a evolução dos combates modernos e a necessidade de armas mais compactas, os fuzis originalmente concebidos com canos de 20 polegadas passaram a ser adaptados para plataformas mais curtas, como o Colt M4, com 14,5 polegadas, além de versões com 11,5 polegadas e até menores, voltadas ao emprego em CQB. O ponto crítico é que, à medida que o cano é encurtado, torna-se mais difícil preservar, ao longo da trajetória, a velocidade necessária para o melhor desempenho terminal do 5,56 × 45 mm.
Foi exatamente isso que o teste demonstrou. Abaixo, seguem os dados compilados do teste:

Os dados do gráfico mostram que o maior ganho de velocidade ocorreu justamente na passagem do cano de 7,5 para 11,5 polegadas. Com apenas 4 polegadas adicionais, a velocidade média subiu de 2.367 fps para 2.857 fps, representando aumento de 20,70%.
A partir daí, os ganhos continuam existindo, mas em proporção menor. Da plataforma de 11,5 para 14,5 polegadas, houve acréscimo de 3 polegadas de cano e a velocidade passou de 2.857 fps para 3.010 fps, aumento de 5,36%. Já de 14,5 para 16 polegadas, com acréscimo de 1,5 polegada, a velocidade subiu de 3.010 fps para 3.084 fps, ganho adicional de 2,46%.
Isso demonstra um comportamento de retorno decrescente: o cano maior continua elevando a velocidade, mas o acréscimo mais relevante ocorre quando se sai de uma configuração extremamente curta para uma intermediária.
Como o cano de 7,5 polegadas destoou de forma significativa dos demais resultados, elaboramos uma tabela específica tomando essa configuração como referência, para evidenciar a diferença em relação às plataformas mais longas. Os dados seguem na tabela abaixo.

A partir dessa comparação, observa-se que a plataforma de 11,5 polegadas, com acréscimo de 4 polegadas de cano, apresentou ganho de cerca de 20% na velocidade em relação ao cano de 7,5 polegadas. Já o cano de 14,5 polegadas, com aumento de 7 polegadas, apresentou ganho aproximado de 27%. Por fim, a plataforma de 16 polegadas, com acréscimo de 8,5 polegadas de cano, alcançou pouco mais de 30% de aumento na velocidade. O cano de 7,5 polegadas, portanto, impôs uma perda balística muito mais acentuada, justamente por reduzir de forma severa o tempo de aproveitamento dos gases e a aceleração do projétil no interior do cano.
Em outras palavras, o cano de 7,5 polegadas entrega o projétil à boca já com velocidade significativamente reduzida em relação ao que a plataforma de origem do cartucho (canos de 20 polegadas) foi concebida para entregar. A literatura de balística terminal associa os efeitos lesivos mais relevantes do 5,56 × 45 mm, como cavidade temporária, tombamento e eventual fragmentação, à manutenção de velocidades de impacto elevadas. Configurações de cano muito curto reduzem a margem disponível para preservar essas velocidades ao longo da trajetória. A quantificação exata dessa perda de potencial terminal depende de medições de balística externa e terminal não realizadas neste estudo.
O efeito do comprimento de cano sobre a velocidade também foi avaliado com munição de projétil mais pesado, em carregamento OTM (Open Tip Match) de 77 grains, disparado nas mesmas plataformas de 7,5 e 14,5 polegadas. Por se tratar de projétil consideravelmente mais pesado que o M193 de 55 grains, já se esperava velocidade inicial menor em ambas as configurações, o que foi confirmado pelo teste: a Taurus T4 de 7,5 polegadas registrou média de 2.082 fps (cerca de 635 m/s), enquanto a Fire Eagle FE-145S de 14,5 polegadas atingiu média de 2.596 fps (cerca de 791 m/s).

O ganho de velocidade entre as duas plataformas foi de 24,69%, magnitude semelhante à observada com M193 entre os mesmos canos. O ponto que merece destaque, contudo, está no patamar de saída do cano de 7,5 polegadas: a 635 m/s, o OTM 77 gr deixa a boca apenas cerca de 25 m/s acima do limiar convencional de 610 m/s, margem ainda mais estreita que a observada com a M193 (110 m/s). Em projéteis mais pesados, embora o momento linear seja superior ao do M193 de 55 grains, a margem de velocidade disponível em canos extremamente curtos torna-se ainda mais reduzida, o que reduz a faixa útil em que se pode contar com os efeitos terminais associados à alta velocidade.
CONCLUSÕES PRÁTICAS
Os testes no cronógrafo mostraram que o aumento do comprimento do cano gerou ganhos de velocidade em ambos os calibres analisados, com magnitudes documentadas nas tabelas anteriores. Como a energia cinética e o momento linear são funções diretas da velocidade (e da massa, mantida constante por cartucho), o ganho se traduz necessariamente em ganho de energia e de momento.
No caso do 9 mm Luger, o aumento do comprimento do cano gerou ganho considerável de velocidade, mas sem crescimento proporcional. Como observado no teste, mesmo quando o comprimento do cano mais do que dobrou, a velocidade não acompanhou essa proporção: a carabina de 8,5 polegadas apresentou ganho na faixa de 16% em relação ao cano de provete de 3,9 polegadas. Esse acréscimo eleva o momento linear do projétil de forma proporcional, o que tende a favorecer a capacidade de penetração. A velocidade obtida, contudo, permanece bem abaixo do limiar convencional de alta velocidade, de modo que o ganho não torna o calibre capaz de produzir lesões significativas por cavidade temporária.
Em determinado ponto, a tendência é que o acréscimo de cano deixe de trazer benefício expressivo e possa até gerar perda de velocidade. Isso ocorre quando a pressão residual dos gases atrás do projétil cai abaixo da pressão necessária para vencer o atrito do projétil contra o raiamento. A partir desse ponto, o cano passa a desacelerar o projétil em vez de acelerá-lo. Nos comprimentos testados, até 14,5 polegadas, essa perda ainda não foi verificada, mas os dados já indicam redução progressiva do ganho.
Também se observou que pistolas subcompactas e compactas apresentam uma leve redução de velocidade quando comparadas às pistolas standard. Essa diferença, embora pequena em termos absolutos, pode trazer algumas implicações para o comportamento terminal, tendo em vista que projéteis expansivos ponta oca dependem de uma janela mínima de velocidade para deformar conforme projetados, e velocidades abaixo dessa janela podem resultar em expansão parcial ou inexistente. Esse fator pode variar conforme a marca e modelo do cartucho. Em cenários em que essa janela não pode ser garantida, munições ogivais (não expansivas) tendem a apresentar comportamento de penetração mais previsível.
Em síntese, as carabinas em 9 mm Luger oferecem alguma vantagem balística sobre as pistolas, principalmente pelo aumento de velocidade, energia e momento linear. Contudo, essa vantagem é menor do que se poderia imaginar apenas pelo maior comprimento do cano, e precisa ser equilibrada com a proposta de emprego da arma. Seus principais benefícios estão no conjunto da plataforma: maior capacidade de carregador, melhor controle da arma e maior estabilidade no disparo, especialmente pela possibilidade de emprego com três pontos de contato (mão de empunhadura, mão de apoio e ombro). Em contrapartida, o cano mais longo prejudica a mobilidade em ambientes confinados ou no interior de veículos.
No calibre 5,56 × 45 mm, o comportamento medido foi diferente. O cano de 7,5 polegadas apresentou perda muito acentuada de velocidade em relação às demais plataformas, registrando cerca de 721 m/s (2.367 fps) na boca do cano com a M193 de 55 grains e cerca de 635 m/s (2.082 fps) com a OTM de 77 grains.
Aplicando o limiar convencional de DiMaio (610 m/s), a M193 sai da boca apenas cerca de 110 m/s acima da referência e a OTM apenas 25 m/s acima, ambas praticamente no patamar inferior do que a literatura considera alta velocidade, com margem ainda mais estreita no projétil mais pesado. Considerando a desaceleração aerodinâmica típica desses projéteis, esse resultado sugere que ambos perderiam a condição de alta velocidade a distâncias relativamente curtas.
O desempenho terminal do 5,56 × 45 mm com projétil M193 e OTM está fortemente associado à manutenção de velocidade no impacto, especialmente para os efeitos de cavidade temporária, tombamento e eventual fragmentação. Em velocidades de impacto significativamente reduzidas, esses efeitos tornam-se menos prováveis ou menos intensos, com a lesão passando a depender predominantemente da cavidade permanente, com diâmetro próximo ao próprio calibre do projétil (cerca de 5 mm ou 0,22 polegadas). O encurtamento extremo do cano reduz, portanto, a margem de velocidade disponível para explorar plenamente o potencial terminal previsto para esse cartucho.
A diferença entre os canos de 11,5 e 14,5 polegadas, por sua vez, foi relativamente pequena, na faixa de 5%. Isso sugere que a plataforma de 11,5 polegadas pode representar um ponto de equilíbrio interessante, pois oferece ganho expressivo em mobilidade em relação ao cano de 14,5 polegadas, sem uma perda tão acentuada de velocidade. O cano de 7,5 polegadas, embora possa ser útil em contextos muito específicos de CQB, cobra um preço balístico muito maior.
Com isso, o objetivo deste artigo não foi classificar determinado conjunto arma-munição como bom ou ruim. Foi demonstrar que cada configuração envolve vantagens e limitações. O mesmo conjunto que oferece maior velocidade e melhor desempenho terminal pode sacrificar mobilidade, enquanto uma plataforma mais curta pode favorecer o manejo em ambientes confinados, ainda que com perda balística relevante.
A escolha do comprimento de cano deve considerar a finalidade do operador e o contexto de emprego. A velocidade é um fator importante, embora esteja longe de ser o único. Devem ser avaliados também o controle da arma e a estabilidade no disparo, a capacidade do carregador, a precisão em diferentes distâncias, a facilidade de porte ou transporte e o desempenho terminal esperado em cada conjunto. O que o teste mostra é que o tamanho do cano importa, embora a relação entre cano e velocidade esteja longe de ser simples ou linear. Cano maior não dobra a velocidade, e canos muito curtos, sobretudo em calibres de alta velocidade, podem comprometer de forma relevante o desempenho terminal.
THOBIAS DA SILVEIRA

Oficial da Brigada Militar do Estado do Rio Grande do Sul. Graduado em Direito e em Relações Internacionais. Pós-graduado em Balística e instrutor de armamento e tiro. É criador da página Balística & Armas (@balisticarmas) no Instagram, espaço dedicado à divulgação de conteúdo técnico sobre armas de fogo, munições e balística para profissionais de segurança pública, instrutores, atiradores e demais interessados no tema.
BIBLIOGRAFIA
Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC). Catálogo técnico de munições. Ribeirão Pires, SP.
Cunha Neto, João da. Balística para profissionais do direito. 1. ed. São Paulo: Clube de Autores, 2020.
DiMaio, V. J. M. Gunshot Wounds: Practical Aspects of Firearms, Ballistics, and Forensic Techniques. 3. ed. Boca Raton: CRC Press, 2016.
Fackler, M. L. Wounding patterns of military rifle bullets. International Defense Review, v. 22, n. 1, p. 59-64, 1989.
Mariz, Luiz Gaspar R. Manual de balística: fundamentos e aplicações. 2. ed. Campinas: Millennium Editora, 2025.
