Se você tomasse um tiro agora, o que faria?
Fiz essa pergunta durante uma palestra numa escola e a resposta não me surpreendeu. Havia cerca de 200 professores e colaboradores, imbuídos dos melhores propósitos e aptos a lidar com as mais inusitadas e inimagináveis adversidades das turmas infantis. Ante tentativas tímidas – e frustrantes – de respostas, não demorou para que o diretor, com indisfarçável incômodo, pedisse a palavra. Sob expectativas de salvação, alegou que a escola cumpre a Lei Lucas, tendo habilitado em primeiros-socorros um percentual de professores. Louvável. De verdade. Isso é um enorme avanço e denota responsabilidade. Mas, insisti: se você tomasse um tiro agora, neste momento, o que faria?
Evidente que interrompi o desconforto. Por vezes o constrangimento é um colateral necessário ao aperfeiçoamento. Mas nem sempre. Anos atrás fomos admoestados ante o trágico acidente com o jovem Lucas. Então com 10 anos, engasgou-se comendo um cachorro-quente na escola e, infelizmente, faleceu. Trágico. Triste. E o constrangimento era nosso: o que não fizemos para salvar Lucas? Certamente, muita coisa. Cerca de um ano depois foi sancionada a Lei 13.722, conhecida como Lei Lucas. Ela tornou “obrigatória a capacitação em noções básicas de primeiros socorros de professores e funcionários de estabelecimentos de ensino públicos e privados de educação básica e de estabelecimentos de recreação infantil”. Um avanço, sem dúvidas. Mas será o suficiente? Temo que não.

Primeiros-socorros são daquelas habilidades que não se contentam com diplomas e certificados nas paredes. Ela demanda esforço contínuo. Estudo sugeriu que a qualidade do atendimento de RCP caiu de 78% – índice logo após o treinamento – para 40% em em seis meses. Outro avaliou 40 pessoas treinadas e, após um ano, apenas 16 dessas ainda foram capazes de realizar a manobra com eficácia. E, mesmo estas, com retenção média de 60% a 70% apenas. Acho que não preciso ir além. O treinamento não-habitual, sem revisões periódicas e rotineiras, tem chance razoável de ser insuficiente.
Todavia, isso não é tudo. Habilidades práticas que serão exigidas sob estresse agudo raramente serão performadas com a mesma proficiência. Em situações críticas, o corpo humano sofre alterações fisiológicas relevantes. Há vasoconstrição, redução da capacidade motora fina, perda da visão periférica. Não bastasse, também as capacidades cognitivas se deterioram, prejudicando o processo de tomada de decisões.
Acontece que a maior parte dos treinamentos ocorrem sob as condições mais favoráveis possíveis. Em uma sala confortável, climatizada, com pessoas amistosas e sorridentes. Há um manequim à frente, e o professor pede gentilmente, ante inevitáveis brincadeiras da turma, que sejam realizadas as manobras recém-aprendidas. Esse cenário, embora convidativo, certamente será bastante diferente daquilo que se apresentará em um caso real. No momento crucial, ante a platéia atônita e barulhenta, haverá uma pessoa que dependerá dos seus conhecimentos e esforços. Entender o que está ocorrendo, o fluxo de ações necessárias, e tomar decisões assertivas, somada a excitação de não poder errar e o fardo da responsabilidade, não parece trivial. E não será.

Fonte: National Guard. <https://www.nationalguard.mil/News/Overseas-Operations/Article/1573841/saving-lives-through-tactical-combat-casualty-care/>
Mas há ainda um outro problema. Será o último aqui, prometo. O conteúdo e as habilidades treinadas nas escolas dialogam com as ocorrências mais habituais. Engasgos, contusões, desmaios, quedas, afogamentos. Mais de 3.300 crianças são vítimas fatais de acidentes por ano no Brasil. Faz sentido focar nessas adversidades. Todavia, há um problema aterrorizante e real. Em algum momento uma pessoa pode entrar na sala de aula, com uma arma de fogo ou uma machadinha, e desferir disparos ou golpes indiscriminadamente. Isso aconteceu em Realengo, em 2011. Aconteceu em Suzano, 2019. Em Blumenau, 2023. E vai acontecer novamente. E novamente. Infelizmente.
As vítimas destes fatídicos episódios dificilmente precisarão de manobras de desengasgo ou RCP. As habilidades, talvez não aprendidas e nunca treinadas, serão outras. Sabemos quais? É possível. Após um terrível evento de agressão em escola nos EUA, em 2012, especialistas sugeriram uma série de medidas para preservar vidas em casos assim. Dentre as habilidades está a contenção de hemorragias maciças. Um programa então foi desenvolvido para difundir estes conhecimentos. Certamente não é a solução derradeira, mas pode ser um passo. Certo?

(Tradução livre pelo autor).
A mera insegurança daqueles profissionais no auditório é indício de que algo precisa ser feito. Responder em público é bem menos aterrorizante que atender uma criança com uma machadinha cravada nas costas, como ocorreu em Suzano. Muito menos. Ainda assim, ninguém afirmou com segurança o que deveria ser feito. E já é hora de nos prepararmos. Já é hora de perguntarmos: o que estamos fazendo é suficiente? Sigo temendo que não. E nosso desdém pode ter custos. No momento decisivo, você saberá suas falhas. E lembre-se: esse constrangimento será seu.